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Anotações e Opiniões Roupas

Produtos feitos à mão: Porque devemos comprar?

Os produtos feitos à mão fazem parte da nossa história. Eles se tornaram mais raros a medida que as sociedades começaram a se industrializar, mas mesmo com a automatização da produção, muitos continuaram nadando contra a maré, produzindo mercadorias feitas à mão.

Hoje, vivemos uma espécie de renascimento da produção artesanal, impulsionada por um sentimento anti-industrial. As marcas de um trabalho manual são as impressões digitais de um artesão, e os processos manuais são extremamente valorizados. No mercado, eles se tornaram sinônimo de qualidade.

Mas o que realmente ganhamos com isso?

Você compra a história ou o produto?

Bar Hipster no Brooklyn

Não é apenas o produto feito a mão, customizado, sob medida, etc, que está em alta. Vivemos a busca por todas as coisas “autênticas” e “pré-modernas”, muitas vezes confundindo qualidade com nostalgia.

Queremos sentar num bar montado com madeira de demolição e escolher sua refeição lendo um lettering manual feito tinta branca. Beber em potes de vidro é mais “pinterest”. Nesse cenário, quanto mais pitoresca for a história, melhor.

Na moda, vemos isso nos estilos e na produção. Gostamos de workwear antigo, da estética Ivy League, da alfaiataria old school. Queremos botas goodyear welted, ternos e camisas sob medida e calças jeans selvedge.

Todas as marcas querem entrar na onda e até lojas com produção de massa estão no mesmo barco. Na Gap e na JCrew você compra calças feitas “à moda antiga” com raw denim e pode personalizar suas camisas com um monograma para ter um produto feito à mão.

Onde fica o limite?

O “171” da Louis Vuitton

Propaganda enganosa Louis Vuitton

Em 2010, o conselho nacional de publicidade do Reino Unido proibiu uma campanha da Louis Vuitton por sugerir que os produtos da empresa são artesanais, sendo que na verdade não são.

As fotos suavemente iluminadas dessa campanha mostram moças jovens e bonitas posam costurando à mão a alça de uma bolsa ou preparando o caminho para a sovela em uma carteira.

Imagens serenas invocando o artesanato que a Louis Vuitton quer que você ache que existe em seus produtos feitos em série.

Não é muito diferente de anúncios com modelos photoshopadas ou histórias inventadas sobre origem das empresasAté a Levis já foi criticada por isso.

O trabalho manual é muito mais tangível do que imagens e histórias. Na hora de comprar, as pessoas levam em consideração como a coisa foi feita.

Clientes estão dispostos a pagar por itens genuinamente feitos à mão. Uma bota da Role Club pode custar mais de dois mil dólares, e uma camisa da Kiton sai por uns 800 dólares para quem quer o prazer ter o colarinho, bainha e mangas costurados à mão.

O consenso geral é que feito à mão é mais bem feitos que industrializado e assim, o cliente passa a acreditar que aquele produto vale mais por que há todo um trabalho por trás.

Porque toda mística em torno do trabalho manual?

Alfaiate trabalhando um terno feito à mão

As vezes os consumidores precisam de motivos práticos para pagar por uma mercadoria feita à mão. As empresas estão muito felizes em fornecer essas razões.

Os argumentos mais comuns são:

  • Os produtos artesanais tem mais detalhes
  • Um artesão acompanha cada etapa, preocupado com a qualidade do trabalho sem precisar correr para produzir em grande escala.
  • As fábricas se preocupam em cortar custos e trabalham com obsolescência programada para motivar o consumismo.
  • O produto com fabricação manual, por sua vez, é feito para durar.

Quando uma marca divulga que seu produto mais caro é artesanal, usa um destes argumentos para convencer o consumidor que ele está fazendo uma boa escolha.

A realidade é que a maioria das informações que você lê sobre a roupas masculinas vem do marketing, independente se a fonte é o ateliê de um alfaiate ou uma grande marca.

Quem quiser falar sobre produtos sob medida feitos à mão vai conversar com um artesão. O problema é que muitas vezes eles só estão familiarizados com a própria realidade. Comparam seu trabalho manual com as máquinas de costura planas em sua oficina, mas não conseguem comparar com tecnologias mais avançadas. Essas outras máquinas são feitas para empresas que produzem milhares de peças por ano.

Quem pesquisar sobre a produção de uma marca, vai conversar com alguém de relações públicas e receber um release falando sobre a ética e sustentabilidade da empresa. Sobre o processo de produção, apenas o superficial. Os detalhes são complicados, e pouco importam para a imprensa.

Assim, dada a distribuição assimétrica de informações, você vai ler apenas sobre as virtudes do trabalho manual. Sim, inclusive aqui.

Essas virtudes qualitativas podem ser verdades, ou não, mas não são estes os verdadeiros méritos das mãos de um artesão.

O trabalho manual x trabalho das máquinas

Terno sob medida feito na Itália

Como resultado desse pensamento, as empresas modernas foram colocadas entre a cruz e a espada.

Até pouco tempo atrás, nada disso importava no mundo de cadeias logísticas globais. Agora, elas precisam usar as vantagens produção industrial para serem competitivas, mas têm que encontrar formas de se posicionar com valores anti-industrialismo.

Algumas empresas são transparentes e nasceram nessa nova realidade. Quando entrevistei os fundadores da Cutterman, eles demonstraram muita transparência deixando claro que seus produtos são feitos com máquinas.

É diferente do posicionamento inicial dos sapatos Louie, enaltecendo a palavra manual sem a produção realmente fazer frente ao termo.

Outras, são um pouco mais astutas. Ao invés chamar de “handmade”, várias marcas de sapato nomearam suas linhas de “benchgrade” e “handgrade”, por exemplo. A Church’s, costumava chamar seus melhores sapatos de “custom grade”. São termos sem significado, apenas rótulos cativantes que implicam um padrão manual, sem realmente dizer que são.

Muitas outras marcas descrevem seus produtos como “feitos sob medida”, “personalizados” ou “feitos à mão”, nenhum dos quais serve para descrever os produtos que fazem. Com tantos fabricantes usando, esses termos praticamente perderam o significado.

Para que o artesanato signifique algo novamente, precisamos compreender melhor o valor do conceito. Isso não significa apenas saber mais sobre o processo de produção, mas também derrubar alguns mitos e identificar o real vaor.

1. Roupas costuradas à mão são mais duráveis

Alfaiate costurando uma calça à mão

Uma das máximas do feito à mão é que costuras feitas à mão proporcionam um nível de flexibilidade e durabilidade que as máquinas de costura não podem conseguem replicar. De certa forma isso é verdade, mas quase na maioria das vezes, não.

As primeiras máquinas de costura faziam um ponto corrente, uma série de loops que formam um padrão semelhante a uma corrente.Eles podiam ser desfeitos com uma certa facilidade e para piorar as máquinas bastante desajeitadas dificultavam o trabalho bem feito.

Melhorias técnicas permitiram que as máquinas fizessem o pesponto (lockstitch). Dois fios são entrelaçados e a costura fica mais fortes, porém sem flexibilidade. Quando usados ​​em áreas sujeitas a tensão – como o traseiro de uma calça – eles podem arrebentar.

O alfaiate, por sua vez, podia fazer um ponto-atrás à mão. Este ponto volta o fio sobre si mesmo e permite que a costura estique um pouco. O resultado não desenrola como o ponto de corrente nem cede sob tensão como o pesponto.

Baseado em como as coisas funcionavam numa época, ficamos com a idéia de que os pontos costurados à mão são para sempre superiores, mas essa noção deixa de lado alguns avanços tecnológicos importantes.

Já existem máquinas capazes de replicar o ponto-atrás, e outras que melhoram a costura com uma série complexa de pontos. Mesmo assim as pessoas continuam preferindo o trabalho manual e até mesmo tecnologias antigas. Por que será?

2. Sapatos feitos à mão duram mais

Construção de um sapato virado à mão

Avanços tecnológicos semelhantes podem ser vistos em outros lugares. O solado dos sapatos costumavam ser costurados à mão, e hoje existem máquinas que fazem costura blaqueada e goodyear welt.

Antes dessas máquinas serem inventadas os sapatos feitos em massa eram apenas colados, o que faz muita diferença para uma sola costurada. Hoje, o diferencial na durabilidade de uma sapato virado com a sola costurada à mão e um sapato com construção goodyear welted dificilmente será notada durante a vida da pessoa.

É possível comprar um sapato com construção goodyear por uns 300 dólares. Um sapato com construção manual você pode comprar por uns 600 dólares, e um calçado sob medida, com construção manual, custa cerca de 2000 dólares. Sabe dizer se um dura mais e é mais confortável do que o outro?

É muito provável que sim, mas eu não sei se um sapato feito à mão precisa se justificar com argumentos práticos. Afinal, seria difícil provar que ele dura dez vezes mais.

Sola de sapato feita à mão

É importante reconhecer não só quando a tecnologia progrediu, mas também apreciar o relacionamento complexo e às vezes simbiótico entre as máquinas e artesãos. As máquinas têm, de muitas maneiras, forçado os artesãos a desenvolver novas inovações.

Por exemplo, o detalhe da sola “beveled”, vista a cima, surgiu porque quando as máquinas surgiram os sapateiros precisavam inventar um detalhe manual que elas não conseguissem replicar.

3. Gravatas de qualidade devem ser costuradas à mão

Costurando uma gravata à mão

Gravatas, costumavam se beneficiar de ter suas abas suavemente unidas à mão. Isso permite maleabilidade na hora de de dar e desfazer o nó, o que. Essa folga ajuda a gravata a manter a forma por mais tempo. Apenas um artesão habilidoso costumava ser capaz e fazer esse ponto, mas agora algumas máquinas podem replicá-lo.

Esses são apenas alguns pontos onde, em termos de durabilidade, a máxima do feito à mão ser muito melhor não fica tão clara.

O trabalho manual é realmente melhor?

Fábrica de roupas na revolução industrial

Porque pessoas decidem costurar a sola à mão? Porque uma marca prende a cintura da calça com linha e agulha?

Olhando de fora, o resultado é o mesmo. Na calça, o ponto manual tem acabamento interno mais limpo que só é visto por quem enxerga o interior da peça. A sola é costurada costurada à mão é fixada diretamente na vira, sem uma tira de tecido que enfraquece a construção. A diferença de durabilidade é a muito a longo prazo e nem mesmo o dono vai admirar visualmente esse detalhe totalmente interno.

Mesmo sem ninguém mais perceber esses detalhes, algumas pessoas ficam contente de saber que ainda existe este tipo de trabalho tradicional sendo feito. Há pessoas que enxergam beleza na habilidade de executar uma tarefa.

É por esse mesmo motivo admira-se uma casa de botão acabada manualmente. Ela não tem nenhuma vantagem prática. Quando bem feita, é apenas um trabalho manual muito bem executado. A alegria é produzir o trabalho manual mais bem feito possível.

Quando falo de tipos de construção ou como um produto é feito não estou falando exatamente de praticidade ou durabilidade. É claro que algumas técnicas são necessárias para um resultado melhor, mas arte do ofício se sustenta sozinha.

Ou seja, para valorizar o trabalho manual, não podemos pensar nos termos puramente práticos do artesanato. Quando bem feito, um item feito à mão coloca um pouco de romance na vida.

O trabalho manual deve ser apreciado dentro de suas próprias regras. Não há necessidade de inventar justificativas práticas para o que obviamente é um luxo.

Se vale a pena? Depende do que você valoriza. Aplicar os mesmos critérios para todos os tipos de produtos da moda masculina seria como criticar uma improvisação de jazz com os critérios da música clássica.

O verdadeiro valor dos produtos artesanais feitos à mão

Alfaiate em Savile Row

Apreciar um produto apenas pelas suas qualidades práticas é valorizá-lo apenas por sua longevidade, função e design. Neste campo, as máquinas quase sempre dominarão, pois suas produções são feitas com mais precisão, mais econômicas e cada vez mais duradouras.

A vantagem do artesanato feito à mão não tem nada a ver com isso, e como eu falei, não deveria nem mesmo ser justificada dentro destes termos. Ao contrário, o artesanato é sobre valores humanísticos.

Quando algo é verdadeiramente feito à mão, apreciamos não apenas como um objeto, mas também o testamento da habilidade do artesão. Os produtos feitos à máquina podem existir desconectados de seus fabricantes, mas os objetos feitos à mão contam da pessoa que os criaram.

Também podemos valorizar o trabalho manual por seu valor artesanal. Os produtos industrializados são feitos com perfeição e precisão. Quando agrupados, são indistinguíveis. Os produtos artesanais, por sua vez, têm “personalidade”, ou “caráter”. O que eu quero dizer com isso?

Quero dizer que eles são feitos com a visão de um ideal em mente, mas, como são criados por mãos humanas, acabam com pequenas variações ou inconsistências. Ao existir ligeiramente afastada do ideal, cada peça afirma sua própria individualidade para o mundo. Não valorizamos os bens artesanais porque eles são perfeitamente feitos; nós os valorizamos porque são humanamente imperfeitos.

Voltaire acreditava que se pudéssemos aceitar e valorizar essas qualidades no artesanato, poderíamos aprender algo sobre a própria vida. Afinal, faz parte da natureza humana esforçar-se pela perfeição apenas para fracassar por pouco. Ao apreciar as irregularidades nos bens artesanais, podemos desenvolver expectativas mais realistas e levar existências mais agradáveis.

Com certeza, muito poucas coisas são feitas completamente por mão hoje em dia, ou até mesmo completamente por máquinas. Uma costura feita à mão não é mais durável do que um ponto industrial bem feito, e uma camisa de fábrica com um monograma costurado à mão não oferece nem valor humano nem artesanal. Não devemos confundir as coisas.

Conclusão

Sim, devemos valorizar as máquinas e sua contribuição para o valor comercial de um produto. Eles tornam as coisas mais acessíveis e duráveis. O trabalho manual, no entanto, é sobre valores humanistas e até mesmo filosóficos. No final, estas são as únicas defesas do feito à mão realmente sustentáveis

Em alguns momentos não é claro quando um produto cruza a linha de um para o outro mas, devemos prestar atenção em como as classificações são usadas. Isso não só nos dará uma apreciação mais diversificada pela produção, mas também nos permitirá preservar e proteger o papel especial do verdadeiro artesanato.

Obrigado por acompanhar até o final. Deixe um comentário com a sua opinião, e se gostou, curta e compartilhe.

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