O Workwear de Verdade

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Eu confesso: Estou cansado do workwear. As botas, o jeans bruto, e as camisas de flanela terão sempre espaço no meu guarda roupa, mas ver roupas de colarinho azul sendo ressuscitadas e vendidas para quem não constrói, repara, ou produz nada tangível com uma apresentação enlatada me cansou.. Talvez por isso tenha gostado tanto dessas fotos.

Nossos antepassados provavelmente achariam engraçado que os maiores entusiastas do workwear não são madeireiros, mineradores, e nem ferreiros, mas não é preciso ter este tipo de trabalho para valorizar o design da época; o importante é que os valores fundamentais e o design clássico desses produtos ainda existem dentro de nós. Acredito que no fundo a muitas pessoas que realmente gostam da ideia se sentem atraídas pela a dignidade do trabalho árduo, a simplicidade e praticidade das roupas, a ausência de frescuras e afetações, e acreditam em produtos resistentes feitos com qualidade.

Há algo honesto e puro faltando no mundo e na nossa correria diária, com bugigangas cada vez mais descartáveis. Tem trocas constantes de coleções de roupas e lançamento de novos tênis todos os dias, qualquer coisa que justifique uma cor nova. É como se alguns de nós tivéssemos uma uma pulga que não sai de trás da orelha… então colocamos botas e roupas de eras passadas pra homenagear uma versão romantizada de uma época que não vivemos, mas sentimos falta.

Voltando para as fotos: As fotos abaixo mostram maravilhosamente bem o workwear clássico da década de 1940. Não, eles não tem tatuagens, não tem barba, não tem bigodes virados para cima, e nem  cabelos partidos com navalha. Não usam calças jeans coladas com suspensórios, nem meias coloridas. Não era um lifestyle, era uma necessidade. As pessoas precisavam trabalhar com as mãos em condições muito adversas e vestiam roupas e equipamentos de baixa tecnologia que aguentassem o tranco da labuta e a força implacável dos elementos. São as versões low tech dos trajes de segurança, roupas de trabalho e equipamentos específicos, para fábricas, fazendas, e outras funções pesadas.

É por isso que o detalhe mais importante do workwear clássico é que a função conduz o design. Ser chamativo não importa. Só é preciso ser resistente e capaz de realizar uma função. O workwear tem as características necessárias para realizar um trabalho sem deixar ninguém na mão. Ele é simples, honesto e verdadeiro. O produto é confiável, dinheiro bem gasto. Hoje fazemos de tudo para enfeitar; deixar o produto chocante, ousado, “moderno”, e o modelo produzido como se fosse para uma festa a fantasia. Aquele zíper, aquele botão a mais, ou aquele retalho de couro precisam existir? A funcionalidade é o que o verdadeiro espírito do workwear clássico representa.

A primeira foto, de um Sr. trabalhando no pátio ferroviário, é incrível. Repare bem nos detalhes, nos acessórios, na caneta de pena no bolso (ainda não tinham inventado a de esfera), na camisa de lã xadrez, azul e preta, na aba do boné virada para cima… tudo isso é sensacional! E tem também a imagem das mulheres nas fábricas, fazendo horário de almoço vestidas com macacões e óculos de solda (carregando garrafas térmicas e papel de cera!). Bem especial.

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Desde que o workwear pulou para a moda ele vem remetendo a uma época em que a vida era bem mais difícil. Nós romantizamos esse período do hemisfério norte (que começa em 1890) mas não podemos esquecer que também foi uma época de desigualdades sociais, segregação racial e industrialismo frenético. É por isso que eu não gosto de chamar o workwear de um “estilo de vida”: Primeiro porque eu imagino que o estilo de vida de um trabalhador dessa época era acordar super cedo, trabalhar sem descanso, ser mal pago, e ir pra casa ficar com a família. Segundo porque significa ignorar ou maquiar todas as coisas ruins que também aconteciam. Eu prefiro mesmo é curtir os produtos e os princípios por trás da criação e fabricação.

As marcas modernas que conseguem recriar esse espírito do workwear clássico não são as que idealizam um estilo de vida e criam uma casca vazia imitando uma foto antiga, misturando referências que um estudo de marketing mostrou. As melhores são aquelas que procuram estudar as inspirações para entender o que tornou o produto especial e o que fez dele um clássico. As marcas que conseguem enxergar os detalhes relevantes (e se necessário, como melhora-los).

Geralmente são marcas focadas na qualidade, na atenção ao detalhe, nos métodos, no processo… basicamente em apresentar pro cliente um produto em que acreditam e um gosto e padrão constante. Se não for possível chegar na mesma qualidade que as roupas de trabalho tinham, tudo bem… mas o produto vai ser vendido pelo que é, e não como o receptáculo de um estilo de vida. É claro que não estão livres das pressões de oferta e demanda, mas trabalham com honestidade, orgulho e dedicação… talvez nesse ponto combinem com o “lifestyle” dos workers mal remunerados da época (que ainda existem aos milhares).

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Lucas Azevedo
Escrito por Lucas Azevedo
Apaixonado por experiência do cliente, varejo e produtos. Criei o Só Queria Ter Um para compartilhar minhas experiências com botas, raw denim e vintage!